O La Égoïste está sendo “desativado”

Ele vai ficar aqui, mas não postarei mais nele.

 

O novo endereço é http://lagostapoetica.wordpress.com/

O Humano

Adaptação do poema “L’albatross”, de Charles Baudelaire

“Éxilés sur le sol, au milieu des huées
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.”

Sempre, por diversão, os homens, tão conscientes,
Tomam um bom café, essa droga d’aurora,
E seguem, um brutal rebanho de indolentes,
A rotina reinante, o ducado da hora.

Num transporte qualquer, recostados em bancos,
Esses reis da razão, vergonhosos e reles,
Têm todos, tristemente, pensamentos brancos
N’alma vazia então, sob o couro das peles.

Esse viajante aí, como ele é feio e igual!
Ele, outrora especial, nem sequer se percebe.
Um cigarro, ao seu lado, lhe faz passar mal,
E ele segue infeliz essa vida na plebe.

O poeta é a pessoa que ri de um café,
Que se subverte o normal, que recria o seu mundo.
Condenado ao normal, percebendo quem é,
Seu olhar de falcão vê o vazio mais profundo.

O ponteiro de safena

Uma batida. Um pulso grave e cheio.
Pulsa. Pulsa. Pulsa.
É o ponteiro do relógio da vida.
Tiques-taques rubros…

Tolos cantam aos lírios como é belo
Esse contar dos segundos do tempo
Completando circunferências mais-que-perfeitas.
Canta-se aos quatro cantos esses pulsos da vida,
Sempre contando, contando, cantando…

Todos cantam, contam, encantam-se! Tão longe!
Tão pro lado de lá, e eu aqui percebendo
Que os ponteiros do relógio giram, giram, giram,
Até não poderem mais.
Pára.

Que coisa bem boa! O blog tem recebido algumas visitações. Claro, nada expressivo, mas isso me deixa um contente com o que eu faço: parece que eu  onsigo fazer algo de bom. Eu consigo fazer coisas boas às vezes, mas prefiro não me preocupar com isso, antes que elas deem errado.
Aliás, isso me intriga muito: quando as minhas expectativas são boas e eu fico animado, eu sofro uma queda brusca de humor e começo a ficar blasé, mas quando eu espero coisas ruins, as notícias são boas e meu humor e minha auto-estima sobem. Tudo bem que isso pode ser um processo bem normal: quem espera coisas boas tem mais probabilidade de se decepcionar, isso é fato. O que me intriga é o quanto eu presto atenção a detalhes pequenos que me irritam ou deprimem quando eu estou prestes a ficar muito feliz, como nessa semana, quando pensando em ter bons tempos, comecei a deprimir-me com as brincadeiras que meus colegas letristas fazem quanto à minha pessoa. Eu geralemte não me importo e brinco junto: todos lá tem suas características negativas e brincam com isso, mas eu às vezes me importo. Portanto, comecei a achar que ninguém me valoriza e que as pessoas me tem na conta de “ser humano baixo”, grosseiro, anticavalheiro, além de completamente paranoico, coisa que não nego.  Eu sei que isso às vezes me causa um desconforto terrível e eu sei lá por quê!
Eu realmente me pergunto se eu sou um cara mau, vil, mesquinho, arrogante etc. Eu escuto demais todos os elogios negativos que as pessoas me dizem, isso me deixa bem transtornado. Esse “submundo” da minha auto-estima me é bastante peculiar, o que não chega a ser uma vantagem. Felizmente, a maldita paranoia serve para pôr todos os meus pensamentos sob suspeita e me isenta de um auto-flagelamento desnecessário.

Aquele ódio mortal
Que vem rasgar nosso peito
E envenenando o normal
Vem nos tirar desse leito
De enganações, visceral,
Desse vil ninho de cobras
Em que as tais desilusões
(e quaisquer mercadorias)
São vendidas. Borbotões
De produtos esgotados
Nessa febre, meus coitados!,
De vermes, de sanguessugas!
Nesse mundo dos banhados,
Dos rebanhos de pessoas,
Há um homem assustado,
Com o olhar desenfreado
(Pois jamais viu tanta coisa).
Não entende o que acontece
Quando tem, tão de repente,
Uma bala na cabeça…

Naquele segundo em que a bala destituiu a vida desse pobre cidadão, ele pôde, uma vez ao menos, parar o mundo. Ele pôde respirar uma vez, piscar uma vez os olhos, crispar uma vez os lábios, sentir de uma só vez a temperatura da fresca brisa do dia ensolarado daquele mês de primavera. Ele, de uma só vez, gozou todo o prazer da natureza, como afirmavam fazer os antigos, sentindo as delícias do dia. Carpe Diem, não é isso?

É uma pena que esse mundo,
Como as balas de revólver,
Nunca pare duas vezes…

Eu gosto de publicar esses pequenos textinhos (que podem parecer tratados), porque eles são mais fáceis de escrever e neles eu me dou a liberdade de filosofar. Uma coisa me chamou a atenção essa semana: eu gosto de ficar usando vocabulário rebuscado, desatualizado e anacrônico. Maldita mania de pedantismo que eu tenho, da qual eu tento me dissociar, mas não consigo.
Gostar, gosto e essas coisas me lembram estética. Tudo isso é arbitrário, é impressionante. Isso me lembra o texto do Ezra Pound que eu li para a pesquisa em versificação. Ele também é arbitrário, porque ele prega o seu gosto e o que, em sua visão, é boa estética. Acontece que ele aplica isso de uma forma coerente e boa, trazendo reflexões que podem vir a ser muito interessantes para um leitor e pretenso poeta (como eu).
Lendo esse texto, pude ver com claridade alguns pontos em que eu tenho errado na hora de criar poesia. Eu faço imagens fortes, efeitos, trabalhos com o verso, mas tudo isso, tudo de bom que eu posso produzir, fica em minha cabeça. Eu demoro demais a passar as coisas para o papel, isso me prejudica muito e, na hora de escrever, eu acabo por aplicar formas acadêmicas, pedantes e velhas, numa simples reprodução barata das coisas que me inspiraram e que eu acho que podem parecer mais bonitas as olhos dos outros. Faço isso por achar que tornar meu texto mais “enxuto” e “trabalhado” vai ser mais bem visto pelas pessoas aptas a julgar e acabo, com isso, matando a força vital dos meus versos.

É difícil, sim, é. Mas por quê? Porque eu não tenho praticado tanto quanto gostaria. Meu trabalho criador tem-se resumido a algumas poucas horas em que me “deixo” brincar de poesia. Falta-me a aplicação da vontade criadora em sua essência. Ora, ninguém pode ser bom sem prática. Agradeço ao Ezra Pound por ter-me mostrado alguns pontos cruciais de minhas falhas (como esse). Agradeço também a meu professor de literatura e de versificação que me apresentou a Pound. Também afirmo que eu não quero ser um fascista como ele (Pound), mas o que ele fala sobre poesia é validíssimo.

No mais, eu me deixo deixar algumas coisas de lado um pouco. Quem sabe “me libertando” de novo eu possa dar mais vazão às imagens que eu formo mentalmente.

Au revoir.

Cá do leito final de desencanto
Resumirei mi’a vida desgraçada:
Eu tive que viver, melhor que nada…
Vivi. Fui ser normal, nenhum espanto…

Cidadão pós-graduado e doutorado,
Paguei mil contas, sempre fui honesto,
Que é só um modo de ser bem otário.

Tive dois filhos, me casei… E nada!
Eu nada fiz que me valesse a pena…

Eu me debato. Fecho os olhos. Findo.

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